Colonizados que fomos por portugueses ávidos por terras e especiarias, fincou-se em nosso solo (e, “por tabela”, em nossa cultura) os marcos da religiosidade cristã. Por mais de quatro séculos, o cristianismo católico. Contemporaneamente, uma miríade de denominações cristãs atua em nosso solo, fazendo o cristianismo compor mais de 90% do cenário religioso brasileiro. Há implicações desse fenômeno na esfera política? A Carta Magna de 1988, além de assegurar a “liberdade de crença”, vedou, em seu artigo 19, qualquer “dependência ou aliança” do Estado com igrejas ou mesmo o “estabelecimento de cultos”. Ora, não é isso que estamos a ver.
Desde a assembleia constituinte, lideranças evangélicas, sobretudo pentecostais, têm se esmerado na ocupação de cargos legislativos, numa espécie de “cruzada” para a “salvação da política”. Se antes se tratava de declarar ou não apoio a políticos, agora o foco é lançar lideranças religiosas, elas mesmas, como candidatas.. Pastores, bispos, irmãos (e padres) têm apresentado seus nomes como os de “políticos de cristo”. E o que temos visto a partir dessa “cruzada” pelo Brasil afora?
O leitor pode lançar olhar sobre fatos recentes: justificou-se projeto de lei para a transmissão de cultos e missas pela emissora de TV da Câmara Municipal de Fortaleza sob a alegação de que somente as igrejas cristãs, que constituem a “religião verdadeira”, podem “alterar as condições sociais”; recentemente, projeto de lei assegurou a “leitura bíblica” nas escolas municipais, para que se tenha “a melhor forma de conhecer”, segundo o autor do projeto; amparado pela mesma crença, um juiz federal nega solicitação de praticantes da umbanda e do candomblé sob a alegação de que estas não continham “os traços característicos de uma religião”; deputada estadual do Ceará, ao defender a realização de cultos nas dependências da Assembleia Legislativa, afirmou que as pessoas precisam “acreditar no deus cristão”.
Mas nem só de sobrevalorização de sua fé (e do menosprezo que beira o desejo de exclusão dos outros credos) vivem tais atores nos parlamentos. Andam também atrás dos velhos favoritismos que marcam nossa política: na CM de Fortaleza apresentou-se projeto que garantia passe livre para missionários evangélicos, sob a justificativa de que a ação missionária constituía-se como algo de “relevante interesse social”; projeto do Senado garante privilégios para missionários, padres, pastores e instituições religiosas na aquisição de imóveis do programa “Minha Casa, minha vida”.
O que vemos é, pois, claro: o Estado está ocupado em legislar e atuar assegurando a supremacia do cristianismo e de seus adeptos frente a todos os outros credos. Uma volta ao que fomos no começo de nossa colonização: a “Terra de Santa Cruz”. Max Weber, um dos fundadores da sociologia da religião, já mostrava como as religiões de salvação (como é o cristianismo) buscam criar sociabilidades, maneiras de estar e ligar-se ao mundo, que guardem harmonia com os elementos de sua teodiceia, radicalizando contra tudo o que, em seu entender, choca-se com sua cosmovisão, conflitando-se ininterruptamente com a ordem social em que estão inseridos. Assim, a cidadania plena vai postando-se do lado dos que estão “congregados” dentro da religião, da moral e da família “verdadeiras”. O que não se deixa conquistar cai, tal como nossos sujeitos nativos de outrora, da família precária.
